Durante muito tempo, eu interpretei alguns finais como fracasso.
Um relacionamento que já não funciona.
Um trabalho no qual já não caibo.
Um caminho que parecia certo e, de repente, se fecha.
Minha tendência era olhar para aquilo e pensar: o que deu errado?
E, muitas vezes, junto com essa pergunta vinha a necessidade de encontrar uma explicação do lado de fora. A pessoa que não correspondeu. A empresa que não reconheceu. A oportunidade que não veio. A circunstância que atrapalhou.
Até começar a perceber uma coisa desconfortável, mas profundamente libertadora:
os cenários mudavam, mas algumas sensações continuavam se repetindo.
Mesmos padrões. Diferentes cenários.
Talvez seja justamente aí que começa um processo de consciência.
Quando algo se repete em áreas diferentes da nossa vida, vale perguntar se estamos apenas diante de acontecimentos externos diferentes ou se existe alguma coisa em nós atravessando todos eles.
No amor, posso me doar, me adaptar e terminar me sentindo sozinha.
Na carreira, posso trabalhar, entregar, ser competente e continuar sentindo que não sou vista.
Na vida, posso me esforçar muito e ter a impressão de que, toda vez que começo a avançar, aparece um novo bloqueio.
É fácil concluir que a vida está contra nós.
Mais difícil é perguntar:
O que existe de semelhante em mim diante de todas essas situações?
Não para me culpar.
Para recuperar poder.
Existe uma diferença enorme entre culpa e responsabilidade
Olhar para dentro não significa dizer que tudo o que aconteceu foi criado por mim.
Existem injustiças. Existem relações que precisam terminar. Existem ambientes inadequados. Existem pessoas que ferem. Existem situações diante das quais precisamos colocar limites e agir concretamente.
Mas reconhecer isso não me impede de fazer uma segunda pergunta:
O que eu posso aprender sobre mim a partir do que aconteceu?
Essa pergunta muda tudo.
Porque enquanto toda a explicação da minha vida estiver do lado de fora, minha possibilidade de transformação também estará.
Se o problema é exclusivamente o outro, preciso que o outro mude.
Se é exclusivamente a empresa, preciso que a empresa mude.
Se é exclusivamente a circunstância, preciso esperar que a circunstância mude.
Mas quando consigo perceber qual é a minha parte, encontro alguma coisa sobre a qual efetivamente posso agir.
Isso, para mim, é sair do lugar de vítima sem negar o que aconteceu.
É transformar experiência em consciência.
Talvez o lugar não precise ser destruído para que eu possa sair
Essa percepção também modificou a maneira como penso os finais.
Durante muito tempo, parecia que alguma coisa precisava ficar insustentável para que eu tivesse autorização para deixá-la.
Como se o relacionamento precisasse se destruir.
Como se o trabalho precisasse se tornar impossível.
Como se eu precisasse chegar ao limite.
Como se fosse necessário provar que aquele lugar era ruim para justificar a minha saída.
Hoje começo a considerar outra possibilidade:
talvez algumas coisas simplesmente deixem de caber na pessoa que estou me tornando.
E isso não transforma necessariamente o passado em erro.
Um lugar pode ter sido importante e deixar de ser.
Uma identidade pode ter me protegido e depois me limitar.
Uma relação pode ter feito sentido durante determinado período e não acompanhar mais o meu crescimento.
Uma forma de viver pode ter me trazido até aqui sem ser capaz de me levar adiante.
Eu não preciso destruir o lugar.
E, principalmente, não preciso me destruir para conseguir sair dele.
Existe uma outra forma de olhar
Aqui entra uma mudança de mentalidade que tenho tentado praticar.
Diante de alguma coisa difícil, em vez de permanecer apenas em:
“Por que isso está acontecendo comigo?”
começo a experimentar:
“O que isso está querendo me mostrar?”
O que parece um problema pode revelar alguma coisa que eu ainda não estava vendo.
O que termina pode abrir espaço.
O que bloqueia uma rota pode me obrigar a procurar outra.
Uma palavra que me fere pode tocar exatamente numa ferida que ainda precisa da minha atenção.
Não porque tudo aconteça “por uma razão” ou porque eu precise romantizar sofrimento.
Mas porque, já que aconteceu, posso decidir o que farei com aquilo.
Posso transformar uma experiência que me atingiu em matéria-prima para a minha transformação.
A solução estar em mim não significa que tudo dependa de mim
Significa que a minha resposta me pertence.
Posso observar meus padrões sem me condenar.
Posso questionar uma crença que durante anos considerei verdade.
Posso perceber que determinada estratégia foi necessária em outra fase da minha vida, mas hoje cobra um preço alto demais.
E posso escolher diferente.
Talvez pequeno no começo.
Uma conversa diferente.
Um limite.
Uma decisão.
Uma forma diferente de interpretar uma situação.
Uma maneira diferente de falar comigo.
É assim que uma nova identidade começa a ser construída: não em uma grande declaração sobre quem eu serei, mas na repetição de pequenas escolhas coerentes com quem estou me tornando.
E talvez presença também seja isso
Tenho pensado muito sobre presença como a capacidade de permanecer comigo enquanto estou mudando.
Não me abandonar justamente quando estou confusa.
Não me atacar porque ainda não sei.
Não exigir de mim uma transformação perfeita.
Mas me acompanhar como eu gostaria de ter sido acompanhada enquanto aprendia alguma coisa difícil.
Com orientação.
Com limite quando necessário.
Com honestidade.
E também com espaço para errar, reconsiderar e tentar novamente.
Talvez amadurecer seja tornar-se, pouco a pouco, essa presença para si mesma.
Porque mudar de mentalidade muda a forma como interpretamos.
A interpretação influencia nossas escolhas.
Nossas escolhas repetidas constroem novos caminhos.
E novos caminhos produzem resultados que antes pareciam impossíveis dentro da lógica antiga.
Não se trata de controlar a vida.
Trata-se de perceber que, diante do que a vida apresenta, eu ainda posso escolher quem quero ser na relação com aquilo.
E existe uma liberdade enorme nessa descoberta.
Sempre podemos mudar de opinião sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre nossas escolhas — e, inclusive, escolher novamente.
Eu Sou Agnes Chaves Pinto