Eu sou o que eu sou e isso é suficiente.
Talvez o primeiro movimento de consciência não seja mudar alguma coisa.
Talvez seja simplesmente estar.
Antes de transformar a realidade, resolver um problema, alcançar uma meta ou construir uma nova versão de nós mesmos, existe um movimento anterior: voltar para aquilo que permanece quando, por alguns instantes, deixamos de tentar controlar, corrigir, provar ou conquistar.
Presença.
E existe uma frase que sintetiza esse retorno:
Eu sou o que eu sou e isso é suficiente.
À primeira vista, ela pode parecer apenas uma afirmação de autoaceitação. Mas existe uma compreensão espiritual muito mais profunda nessas palavras.
Ela fala sobre identidade. Sobre Deus. Sobre consciência. Sobre suficiência. E, finalmente, sobre o lugar a partir do qual nos relacionamos com a vida.
EU SOU
Em Êxodo 3:14, Moisés pergunta a Deus qual é o seu nome.
A resposta é:
“EU SOU O QUE SOU.”
É uma resposta extraordinária.
Deus não se define pelo que possui, pelo que realizou ou por aquilo que ainda fará. Não existe uma qualificação depois do Ser.
Ele simplesmente É.
“Eu Sou” pode, então, ser contemplado como uma referência ao Ser, à Fonte, à essência divina, ao Todo.
E talvez a presença comece justamente quando interrompemos, ainda que por alguns instantes, todas as definições que acrescentamos depois do “eu sou”.
Eu sou competente.
Eu sou incapaz.
Eu sou bem-sucedida.
Eu sou rejeitada.
Eu sou forte.
Eu sou fraca.
Eu sou suficiente.
Eu sou insuficiente.
Tudo isso já é interpretação.
Antes das definições, existe algo anterior:
EU SOU.
Existe a consciência de existir.
Existe uma presença capaz de observar pensamentos, emoções, circunstâncias e acontecimentos sem se reduzir completamente a nenhum deles.
Posso estar vivendo uma dificuldade e continuar sendo.
Posso não saber e continuar sendo.
Posso perder e continuar sendo.
Posso conquistar e continuar sendo.
As circunstâncias se modificam.
O Ser permanece.
E voltar a essa percepção é voltar à presença.
Eu sou o que eu sou
Existe uma segunda camada nessa frase.
Se o Eu Sou representa Deus, a Fonte, o Todo, a essência divina, então “o que eu sou” pode ser compreendido como a expressão particular dessa Fonte através de cada um de nós.
O Todo manifestando-se no individual.
O macro no micro.
A unidade expressando-se através da multiplicidade.
Isso modifica profundamente a pergunta:
Quem sou eu?
Talvez minha identidade mais profunda não precise ser construída a partir daquilo que consigo demonstrar ao mundo.
Antes dos meus papéis, resultados, títulos, relações, posses, acertos e erros, eu existo.
Eu existo antes de provar.
Eu existo antes de conquistar.
Eu existo antes de ser reconhecida.
E então chegamos à parte que transforma completamente a frase.
E isso é suficiente
Não significa:
“não quero mais nada.”
Também não significa:
“não preciso crescer.”
Muito menos:
“vou permanecer exatamente como estou.”
Suficiência não é estagnação.
Suficiência é o lugar de onde a expansão começa.
Existe uma diferença enorme entre crescer porque acredito que ainda não sou suficiente e crescer porque aquilo que já é inteiro naturalmente deseja se expressar.
Quando parto da insuficiência, digo:
“Preciso conseguir alguma coisa para finalmente estar completa.”
Quando parto da suficiência:
“Já sou inteira e, justamente por isso, posso criar, aprender, experimentar, construir e expandir.”
A expansão deixa de ser uma tentativa de preencher um vazio e passa a ser expressão do Ser.
É uma mudança de origem.
Não faço para ser.
Sou — e a partir daí faço.
Não conquisto para me tornar suficiente.
Sou suficiente — e a partir daí posso conquistar.
O Todo não precisa tornar-se mais Todo
Se minha origem está no Todo, surge uma pergunta:
o que poderia ser acrescentado ao Todo para finalmente completá-lo?
Nada.
O Todo não pode tornar-se mais Todo.
É justamente aqui que a ideia de suficiência ganha uma dimensão espiritual.
Fomos ensinados a acrescentar:
mais reconhecimento,
mais dinheiro,
mais conhecimento,
mais segurança,
mais aprovação,
mais controle,
mais resultados.
E podemos desejar todas essas coisas.
O problema não está no desejo.
A questão é acreditar que alguma delas possui o poder de completar o nosso Ser.
Quando compreendo:
Eu sou o que eu sou e isso é suficiente
retiro do mundo externo uma função que nunca lhe pertenceu.
A função de determinar minha suficiência.
Posso desejar sem transformar desejo em falta de Ser.
Posso construir sem acreditar que só existirei plenamente quando a construção terminar.
Posso prosperar sem exigir que o dinheiro prove quem eu sou.
Posso aprender sem transformar aquilo que ainda não sei em evidência de insuficiência.
Posso mudar sem precisar rejeitar quem sou agora.
É daqui que presença e suficiência começam a se encontrar.
“O Senhor é meu pastor e nada me faltará”
O Salmo 23 começa com uma das passagens mais conhecidas da Bíblia:
“O Senhor é meu pastor; nada me faltará.”
Podemos compreender essa frase como uma promessa de provisão.
Mas também podemos contemplá-la como uma afirmação sobre onde colocamos nossa referência.
Quem é o meu pastor?
O que conduz minha sensação de segurança?
O dinheiro?
O reconhecimento?
A aprovação?
Um relacionamento?
O trabalho?
O controle sobre aquilo que acontecerá amanhã?
Se preciso que tudo esteja organizado externamente para finalmente experimentar segurança internamente, então entreguei ao externo o poder de determinar meu estado.
Quando digo:
“O Senhor é meu pastor”,
reposiciono minha referência.
Minha origem está na Fonte.
Minha identidade está no Ser.
Estou conectada ao Todo.
E então “nada me faltará” ganha outra dimensão.
Não é apenas:
“receberei aquilo de que preciso.”
É também:
“minha consciência não precisa se constituir a partir da falta, porque reconheço minha conexão com a Fonte.”
“Buscai primeiro o Reino”
Em Mateus 6:33 encontramos outra passagem que aponta para o mesmo movimento:
“Buscai primeiro o Reino de Deus […] e todas estas coisas vos serão acrescentadas.”
Existe uma ordem nessa frase.
Primeiro o Reino. Depois as coisas.
Primeiro a consciência.
Depois a expressão.
Primeiro o Ser.
Depois o fazer.
Primeiro a Fonte.
Depois aquilo que emerge dela.
Isso inverte uma lógica muito comum.
Passamos grande parte da vida tentando organizar tudo do lado de fora para finalmente experimentar alguma coisa do lado de dentro.
Quando eu tiver dinheiro, ficarei tranquila.
Quando for reconhecida, saberei que tenho valor.
Quando conseguir aquilo, sentirei segurança.
Quando resolver tudo, poderei descansar.
Mas “buscai primeiro o Reino” propõe outra direção:
comece dentro.
Encontre primeiro a Fonte.
Reconheça primeiro o Ser.
Estabeleça-se primeiro na consciência daquilo que você é.
E então se relacione com a realidade a partir desse lugar.
Não é abandonar o mundo material.
É deixar de pedir ao mundo material que nos diga quem somos.
Da consciência da falta para a consciência do Todo
Quando me percebo separada, surge imediatamente a necessidade de completar.
Algo está lá e eu estou aqui.
Preciso alcançar.
Preciso conseguir.
Preciso controlar.
Preciso garantir.
Preciso provar.
A falta não é apenas uma circunstância. Ela se transforma em identidade.
Mas quando retorno ao Eu Sou, a premissa muda.
Eu pertenço ao Todo.
Eu estou conectada à Fonte.
Eu participo dessa Vida.
Então existe uma diferença fundamental entre:
“Neste momento, algo me falta”
e
“Eu sou falta.”
Uma é circunstância.
A outra é identificação.
A presença permite perceber a diferença.
E a suficiência permite permanecer inteira mesmo enquanto a realidade continua se movimentando.
O que está dentro e o que está fora
É aqui que podemos compreender também a relação entre o micro e o macro, o interior e o exterior.
Aquilo com que me identifico modifica a maneira como percebo, escolho, ajo, recebo e me relaciono com a realidade.
Quando minha consciência está identificada com a separação, encontro o mundo a partir da falta.
Quando reconheço minha conexão com o Todo, começo a encontrar o mundo a partir de outra referência.
E abundância deixa de significar simplesmente ter muito.
“Ter muito” ainda é uma medida quantitativa.
O Todo é outra coisa.
O Todo contém matéria, inteligência, criatividade, possibilidades, relações, recursos, caminhos, conhecimento, encontros e transformação.
Por isso, talvez a consciência de abundância comece antes da abundância material.
Comece no reconhecimento:
Eu faço parte de uma realidade maior do que aquilo que consigo enxergar neste instante.
Todos somos um
Se existe uma Fonte, essa compreensão inevitavelmente nos aproxima da unidade.
Em João 17:21, Jesus diz:
“Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti.”
E em Atos 17:28 encontramos:
“Nele vivemos, nos movemos e existimos.”
Talvez “todos somos um” não signifique apagar nossa individualidade.
Somos expressões diferentes.
Histórias diferentes.
Corpos diferentes.
Experiências diferentes.
Caminhos diferentes.
Mas podemos reconhecer uma origem comum.
Uma Fonte. Muitas expressões.
Um Todo. Muitas formas.
Um Ser. Muitas experiências de ser.
Quando reconheço o divino como origem daquilo que sou, começo também a reconhecer essa mesma origem no outro.
A separação permanece na forma.
A unidade permanece na essência.
Presença é o primeiro nível de consciência
É por isso que presença vem primeiro.
Antes de transformar aquilo que sinto, preciso conseguir estar presente para percebê-lo.
Antes de resolver, estar.
Antes de interpretar, observar.
Antes de manifestar, reconhecer.
Antes de correr para aquilo que falta, perceber aquilo que já é.
Presença não significa passividade.
Presença é o espaço anterior à reação automática.
É o instante em que deixo de ser conduzida exclusivamente pelo pensamento, pelo medo, pela urgência ou pelas circunstâncias e retorno à consciência:
Eu estou aqui.
Eu Sou.
E talvez seja justamente nesse espaço que surge a possibilidade de escolha.
Uma prática de presença
Por alguns minutos, não tente mudar nada.
Não tente chegar a algum estado especial.
Não tente produzir uma emoção.
Apenas respire.
Perceba seu corpo.
Perceba que você está aqui.
E diga internamente:
Eu Sou.
Permaneça.
Depois:
Eu sou o que eu sou.
Permaneça novamente.
E finalmente:
Eu sou o que eu sou e isso é suficiente.
Não tente convencer-se da frase.
Experimente-a.
Se surgir preocupação, perceba.
Se surgir uma necessidade de resolver alguma coisa, perceba.
Se aparecer a sensação de que deveria estar fazendo mais, perceba.
Se a mente quiser explicar, apenas observe.
E volte:
Eu Sou.
Talvez presença seja isso.
O momento em que deixamos de procurar imediatamente fora aquilo que só poderia começar sendo reconhecido dentro.
E talvez essas três passagens bíblicas estejam apontando, por caminhos diferentes, para um mesmo centro:
EU SOU O QUE SOU.
Minha origem está no Ser.
O SENHOR É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ.
Minha referência está na Fonte.
BUSCAI PRIMEIRO O REINO.
Começo pela consciência.
E então voltamos à frase:
Eu sou o que eu sou e isso é suficiente.
Não porque eu já tenha tudo.
Não porque tudo esteja resolvido.
Não porque não exista mais nada para aprender, criar, experimentar ou construir.
Mas porque a minha expansão não precisa nascer da crença de que algo está faltando em mim.
Eu não preciso me tornar suficiente.
A partir da presença, reconheço:
Eu Sou.
E isso é suficiente.
Eu Sou Agnes Chaves Pinto! ♥️
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